O tempo do nunca às vezes volta
e traz com ele lembranças
do que nunca deveria ter sido
Palavras que voam, que saem de mim como pássaros e se aventuram nos ares. Palavras soltas, ditas sem medos ou censuras, que provocam, que mexem com minha alma e me fazem ir além do infinito.
É incrível como a vida brinca de inverter papéis com a gente. Se um dia somos protagonistas em outro passamos a meros expectadores de uma mesma história. Os acontecimentos nos levam a posições opostas, a outro lado da história, a ver as coisas sob outro ângulo. Estranheza talvez seja a palavra mais adequada para usar. Uma estranheza vazia e cinza como se mil anos se tivessem passado. Como se a história houvesse se perdido e em seu lugar outra tivesse sido escrita. Amnésia lembrada e absurdamente trancada a sete chaves em um lugar inacessível e para sempre intocável.
Para um sonhador
E a chuva cai silenciosa novamente. Sinto minha alma renascer a cada pingo. Tenho a sensação de que ontem viajei milhas até lugares desconhecidos. Hoje volto com a chuva e meus pés ainda não encontraram o chão. Sinto-me flutuando e procurando o melhor lugar para meu pouso. Ontem eu saltei de meu precipício e fui sozinha. Para meu maior espanto não morri. Eu não tinha consciência de quanto minhas asas eram grandes e de como eu poderia voar sem amparo. Saltei sozinha e não morri.
Ando em meio a tanta gente e ninguém me nota. Esbarro em um e outro mas é como se nada fosse. Passos ora apressados ora lentos, porém sempre contínuos e carregados de algo que me pesa as pernas e a alma. Carrego meu corpo com a invisibilidade mórbida dos passantes sem sentido de uma vida sem explicação.
O pássaro vivia livre, sobrevoando os ares. Suas longas asas flutuavam quando planava seu lindo voo. Seu canto era ouvido além do horizonte e a felicidade habitava seu coração. Seus dias eram de luz e à noite descansava nas estrelas. Não havia nada que perturbasse sua paz e seu coração voava tanto quanto suas asas. Porém um dia, o pássaro descuidado pousou em mãos desconhecidas, mãos que tinham tanto brilho que era impossível resistir a elas. E foi sua perdição. Suas asas foram cortadas e ele foi aprisionado. Sem dizer o motivo as mãos foram embora o deixando sozinho em sua nova morada. E seu coração ficou pequeno. E sua compreensão não existia. Resignou-se e com a ferida no peito resolveu que continuaria cantando. E seu canto continuou sendo ouvido e na impossibilidade de voar algo dentro dele foi se modificando. Um outro pássaro foi nascendo como a vida que se reinventa e cria novas formas na busca desesperada pela sobrevivência. E o tempo foi passando e a vida do pássaro tornou-se outra. Quando tudo parecia normal e a vida tomava seu curso de forma que ele nem sequer lembrasse que um dia o céu azul lhe pertenceu, aconteceu novamente o imprevisto, o susto, o brilho ofuscante de duas mãos que no passado haviam lhe aprisionado chegavam e abriam sua prisão. Ficara tanto tempo ali que havia se adaptado. A luz cegava seus olhos e o brilho das mãos ofuscava sua mente. E o novo pássaro que havia nascido foi saindo. Pousou nas mãos de luz e não teve medo mesmo sabendo que por causa delas esteve aprisionado por tanto tempo. Então soube naquele momento que fora preciso ficar aprisionado para nascer novamente. As mãos abriram-se e ele alçou voo em direção ao horizonte. Seu voo agora tinha outro sabor, o da renovação, da descoberta de si mesmo, da liberdade verdadeira.
Maldito nó na garganta que não desce nem salta pra fora. Vida desregrada e ingrata que apronta sem nossa permissão. Tudo desce pelo ralo como água do chuveiro na hora do banho. Vai embora feito espuma e sabão, suor e poeira. Fica o nada remoendo por dentro como um fantasma velho e assombroso que teima em fazer sofrer mesmo sabendo que dentro daquele peito a alma já quase morreu. O grito preso quer ser liberto e sair pelos ares mas falta fôlego. Não existe espaço dentro pra tanta dor e lá fora a dor também não caberá.
Certa vez há bastante tempo atrás eu me encontrei em uma estação encantada, não sei como fui parar lá, acho que por um instante na vida eu dormi e ao acordar lá estava. Num determinado momento um trem mágico apareceu com seu apito que parecia me chamar. Sem ao menos pensar subi no trem e a viagem começou. Não havia trilhos nem caminhos em que ele não pudesse ir, em algumas vezes eu colocava minha mão para fora da janela e tocava as nuvens, outras vezes segurava a ponta das estrelas. O vento que entrava tinha o frescor das montanhas mais íngremes e dependendo de onde o trem se encontrava eu sentia o doce aroma do jasmim ou o cheiro refrescante do eucalipto, o gosto do mais puro mel ou a pimenta que ardia na boca com sabor de pecado. Era uma viagem louca sem destino de chegada, mas eu pouco me importava desde que pudesse continuar viajando e escutando o barulho do trem que flutuava no universo dos meus sonhos.
Como são tolos os momentos que deixamos passar sem nada fazer, preferindo o absurdo vazio das horas e as lacunas que os dias vão deixando. Amanhã quero deixar que minha loucura ultrapasse os limites do medo e da censura, quero me entregar aos sonhos impossíveis, que vão além das fronteiras do real e previsível. Quero te encontrar e te dar meus abraços, meus doces beijos e a pimenta do meu corpo. Quero me unir a ti como vulcão incandescente, te queimar em meu fogo e me afogar em tua lava. Amanhã não existirá talvez, será sim ou não, será chuva ou fogo.
Hoje eu abri a porta onde estão guardadas as tuas coisas. Entrei quase levitando, com medo de tocar em algo, não querendo abrir os olhos, com o coração apertado no peito e a alma deixei do lado de fora. Quando resolvi respirar percebi que teu cheiro não estava mais lá e ao abrir os olhos me deparei com um cenário de cores bem diferentes das que meus olhos tinham visto desde a última vez em que lá eu estivera. Como mudam as coisas com o passar do tempo. Como desbotam cores e evaporam odores. Que engrenagem é esta que trabalha em nossa ausência e que só percebemos quando tudo já está modificado? Era tudo tão lindo e agora parece tão banal.
Flutuo na imensidão do espaço que é meu ser e entre a realidade e o ilusório há um vácuo onde me encontro. A tênue linha que me liga entre um mundo e outro é a única coisa que me resta antes que eu me perca para sempre. Agarro-mo a ela como um náufrago em um barco sem leme e sem velas, como um andarilho no deserto com o último gole de água. O amor sangrou meu peito e deixou cicatrizes que nenhum remédio cura e dores que nenhum outro amor aplaca. Não tenho passado nem futuro, meu presente é agora e é nada. Vivo o instante e nada importa, a vida é um fio de sangue que escorre pelas veias, a vida hoje é isso, apenas isso e mais nada.
Quando a chuva cai, fina e mansa, seus pingos parecem que brincam nas poças que se formam no chão. Sinto vontade de entrar nela, molhar o corpo e a alma, sentir na pele o doce molhado de sua água. Queria correr feito criança entre as calçadas e os meus sonhos, em meio as poças e aos pingos. Encontrar abrigo entre o escuro do céu e a ponta do arco-íris, onde deixei guardado meus desejos e sonhos.